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Cronologia da Crise:

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17/01/2006

Depoimento à CPI dos Bingos. O economista Paulo de Tarso Venceslau, expulso do PT em 1998, afirma que dirigentes do PT sabiam de esquema para a arrecadação de recursos por meio de caixa 2, desde 1995. Naquele ano, Venceslau enviou carta registrada em cartório ao presidente do partido, Luiz Inácio Lula da Silva. Denunciou que a empresa Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios), ligada a Roberto Teixeira, compadre de Lula, agia de forma irregular em prefeituras administradas pelo PT. Era contratada sem licitação para fazer um trabalho baseado “em notas falsas e rasuradas”, visando aumentar a arrecadação dos municípios com ICMS. Cobrava comissão de 20% pelos serviços. Na década de 80, Lula morou de graça em imóvel de propriedade de Teixeira, em São Bernardo do Campo (SP).

Em seu depoimento, Venceslau afirma que a Cpem era apresentada como “empresa amiga que poderia ajudar nosso partido”. Em 1993, Venceslau era o secretário de Finanças da Prefeitura de São José dos Campos (SP), cidade administrada pela então prefeita Ângela Guadagnin (PT-SP). Venceslau relata que enviou cópias da carta encaminhada a Lula para várias lideranças do PT, entre as quais os senadores Aloizio Mercadante (PT-SP) e Eduardo Suplicy (PT-SP). Diz Venceslau:

– Levei a denúncia para o Aloizio. Ele ficou chocadíssimo e disse: “Isso é nitroglicerina pura”. Mas não fez nada. Afirmava que tentava e não conseguia. O silêncio continuou.

Entre os conhecedores do esquema, Venceslau cita Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, Paulo Frateschi, ex-presidente do PT em São Paulo, o ex-deputado José Genoino (PT-SP), os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Paulo Okamotto, que ocupava a função de arrecadador de dinheiro para o partido. Venceslau lembra-se do recado que diz ter recebido na época de Frei Betto, amigo de Lula:

– Para explicar a situação, Frei Betto falou: “Se o Lula souber que alguém está conversando com você, ele jura que aquela pessoa vai ser decapitada do partido”. Ninguém teve ousadia ou coragem para ficar do meu lado.

Venceslau acusa Okamotto:

– O Paulo, que não tinha função nenhuma no partido, me chamou de lado e me admoestou, dizendo: “Olha, rapaz, você precisa ter cuidado com o que fala”. Ele era o bate-pau, o pau mandado que executa qualquer tarefa, não quer saber se é lícito ou não. O mesmo Paulo, que hoje é presidente do Sebrae, pedia nas prefeituras do PT a lista de empresários fornecedores, que tinham dinheiro para receber, com objetivo de visitá-los.

Para Venceslau, o seu afastamento da Prefeitura de São José dos Campos, em 1993, decorre do veto que impôs ao contrato com a Cpem. Entrevistada, a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP), ex-prefeita de São José dos Campos, afirma que Venceslau foi demitido devido a “dificuldades de relacionamento”, mas reconhece que auditoria feita na época constatou fraude e o contrato com a Cpem foi rompido. Em relação a Okamotto, a ex-prefeita confirma que ele a procurou, atrás da lista de empresas fornecedoras da Prefeitura:

– Okamotto não era um Marcos Valério, estava mais para Delúbio. O que fica desse episódio é que se conhecia o esquema de arrecadação paralela há muito tempo, desde 1993.

Questionada se o procedimento de Okamotto era considerado normal, Ângela Guadagnin dá a seguinte resposta:

– Não estou dizendo se era dinheiro ou caixa 2, mas que ele poderia se apresentar a um fornecedor, a qualquer empresa, e solicitar uma doação.

Técnicos da CPI dos Correios identificam 82 depósitos em dinheiro, sem registros dos nomes dos depositantes, nas contas bancárias do BankBoston ligadas ao publicitário Duda Mendonça e à sócia dele, Zilmar Fernandes Silveira. Os depósitos somam R$ 2,2 milhões, sendo que 46 deles foram feitos a partir de 2003.

Zilmar recebeu 41 depósitos sem identificação. O maior deles, de R$ 255 mil, em 20 de dezembro de 2002, logo após a eleição de Lula. O depósito mais alto saiu em nome da Comunicação e Estratégia Política, empresa de marketing de Duda. Recebeu R$ 400 mil em 31 de agosto de 2004, ano de eleições municipais.

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