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Cronologia da Crise:

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1/02/2006

Em depoimento à Polícia Federal, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) afirma que recebeu doação ilegal de R$ 75 mil para a campanha eleitoral de 2002. Veio de um esquema operado por Dimas Toledo, ex-diretor de engenharia de Furnas Centrais Elétricas. De acordo com Jefferson, Toledo levou a quantia pessoalmente a seu escritório político, em dinheiro vivo. O diretor da estatal federal só deixou o cargo em 2005, depois que o próprio Jefferson denunciou seu envolvimento no escândalo do mensalão.

A Polícia Federal investiga a autenticidade de um dossiê conhecido como a “lista de Furnas”, cuja autoria é atribuída a Toledo. Ele nega. Contém os nomes de 156 políticos, a grande maioria de oposição ao governo Lula. Eles teriam recebido R$ 40 milhões do caixa 2 de Furnas, durante as eleições de 2002.

A relação de nomes está em papel timbrado de Furnas, mas o carimbo de um cartório de Belo Horizonte foi considerado falso por peritos da Polícia Federal. A fraude serve como manobra diversionista. Desvia a atenção do escândalo do mensalão. Surte efeito. Trava os trabalhos da CPI dos Correios.

O repórter Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, informa que a difusão do “documento” pela internet foi feita por um militante do PT de Belo Horizonte. Ele teria recebido uma fotocópia da lista do deputado Rogério Correia (PT-MG). Correia diz que a obteve do lobista Nilton Monteiro. E Monteiro, por sua vez, entregou o documento a um advogado, já morto. E assim o original não existiria mais. O inquérito confirmará que a lista é uma fraude.

Em entrevista à revista Carta Capital, Jefferson reitera ter recebido os R$ 75 mil de Dimas Toledo, em dinheiro de caixa 2, para a campanha de 2002. Lembramos que, no rateio do governo Lula, Furnas Centrais Elétricas também era área de influência do PTB. O repórter Maurício Dias questiona Jefferson:

– Como era a mecânica de funcionamento do caixa 2 de Furnas? Como o senhor soube do doutor Dimas e como ele o procurou?

– Foi através de um amigo comum. Não quero dar o nome. Vendo a minha dificuldade, me procurou e disse que ia me apresentar ao Dimas Toledo. Perguntou se eu receberia o dinheiro e eu disse que sim.

– Não foi em virtude de um acordo partidário?

– Não, não. Foi pessoal. O doutor Dimas é um homem de tamanho prestígio, de tamanha força, que metade das pessoas incluídas na lista me ligou quando o presidente Lula pediu um nome para substituí-lo em Furnas.

– O senhor já tinha falado desse caixa 2 em Furnas, não?

– Sim, numa entrevista para a Folha de S.Paulo. Falei de um encontro com o Zé Dirceu. Ele me explicou como funcionava e pediu para que o Dimas permanecesse fazendo o caixa do PT e do PTB. Mas o presidente Lula não queria a permanência do Dimas, que ele considerava extremamente tucano. Mas o Dirceu queria que ele permanecesse. Nessa época, o Dimas já transferia dinheiro para o PT. Entregava dinheiro ao Delúbio.

– O que aconteceu?

– Lula reagiu. “Por que recuou?”, perguntou o presidente. “Muita pressão”, respondi. “E você não sabe resistir à pressão?”, insistiu Lula. Eu disse, “então está fechado. Vamos trocar”. O Dirceu protestou e disse que se eu tivesse insistido o Dimas ficaria.

– E por que não insistiu?

– Eu disse que era ruim manter o cara. Aí foi a origem de todo o meu problema com o Dirceu. Por ter tentado remover o doutor Dimas dessa posição poderosíssima de apoio aos partidos políticos. Ele era tão poderoso que governadores me ligaram para que eu não o tirasse, que não insistisse na troca.

De acordo com Jefferson, ele havia feito um trato com o ex-ministro Dirceu, para que os R$ 4 milhões de caixa 2 gerados por Furnas fossem divididos, meio a meio, entre PT e PTB. Isso sem contar “a celebração de novos contratos em volumes vultosíssimos”:

– Essa posição de Furnas só não era maior do que a posição da Petrobrás. É uma das mais poderosas posições políticas do Brasil. É disputada em luta de carnificina pelos partidos. Exatamente em razão do financiamento eleitoral.

O diretor-executivo da organização Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, critica trecho da entrevista de Jefferson a Carta Capital, no qual o ex-deputado afirma que os recursos destinados por Furnas a políticos não saem do caixa da estatal, mas “da relação com as empresas que fornecem serviços”. Escreve Abramo, em artigo publicado na Folha de S.Paulo:

“O expediente de dizer que o dinheiro escuso ‘não saiu dos cofres públicos’, mas do cofre-dois de empresas, tem sido muito utilizado pelos ‘mensaleiros’. Isso é, na verdade, trivial. É evidente, ou deveria ser, que propinas nunca saem diretamente do caixa do Estado, em cheque nominal para o bolso do sujeito que capta a grana. Não há nos lançamentos contábeis de Furnas, dos Correios e do resto das estatais, ministérios, secretarias e autarquias, sejam federais, estaduais ou municipais, administradas por qualquer partido que seja, entradas identificadas como ‘Pagamento de propina ao deputado Fulano’.”

Abramo explica que o dinheiro do suborno sai dos cofres públicos na forma de superfaturamento:

“O que está escrito é ‘Pagamento à empresa fornecedora Sicrana’, devido pela execução do contrato X, conquistado na licitação número Y. Ocorre que a licitação número Y foi direcionada para a empresa Sicrana, a qual praticou preço superfaturado – no mínimo, no montante correspondente ao suborno cobrado como contrapartida do direcionamento.”

Conforme o diretor da Transparência Brasil, os esquemas de corrupção são conseqüência de nomeações para cargos de confiança, feitas por presidentes da República, governadores e prefeitos:

“Ao tecer essa história para boi dormir de que dinheiros ilícitos não saem dos cofres públicos, Roberto Jefferson e o resto dos ‘mensaleiros’ demonstram acreditar que sejamos todos idiotas. Querem fazer crer que corrupção é alguma coisa que acontece por meio da criação miraculosa de dinheiro, sem prejuízo para os cofres públicos e sem que arquemos todos com ela.”

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 11 votos a 3, o pedido de cassação do presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE). Ele é acusado de ter recebido R$ 4,1 milhão de Marcos Valério, mas só admite o recebimento de R$ 700 mil. O dinheiro do caixa 2 do PT, em nome do PP, teria sido usado exclusivamente para pagar serviços de advocacia em defesa do ex-deputado Ronivon Santiago (PP-AC), num processo por compra de votos na eleição de 2002.

A versão de Corrêa foi rechaçada pelo relator do caso no Conselho de Ética, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). Diz o parecer que pede a cassação do mandato do presidente do PP:

“Corrêa exigiu, como parte da negociação que culminaria com o ingresso do PP na base aliada, que o PT efetuasse repasses de recursos a seu partido.”

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