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Cronologia da Crise:

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20/02/2006

O Banco do Brasil tem a honra de vir a público e divulgar o maior lucro de sua história. Impulsionado por receitas advindas da cobrança de juros, o ganho da instituição em 2005, durante o terceiro ano do governo Lula, chegou a R$ 4,1 bilhões. O Banco do Brasil não está sozinho. A Caixa Econômica Federal também obteve o melhor resultado da história, com lucro superior a R$ 2 bilhões. Outro recorde: o lucro do Unibanco, que bateu na casa de R$ 1,8 bilhão, crescimento de 43% em relação a 2004. Mais um lucro estratosférico: o do Banespa Santander, de R$ 1,6 bilhão.

Levantamento efetuado pela Folha de S.Paulo a partir de dados coletados pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em 107 países concluiu que os bancos brasileiros cobram os maiores juros do mundo. A comparação foi feita com números do segundo trimestre de 2005, já no terceiro ano do governo Lula. O método levou a uma taxa de juros real, cobrada pelos bancos nacionais, da ordem de 44,7%. Em segundo lugar ficou Angola, com 43,7%. Depois Gâmbia (31,8%), Paraguai (23,8%) e República Dominicana (22,6%). Em nenhum outro país os juros reais médios dos financiamentos bancários superaram os 20% ao ano. Explicação da Febraban (Federação Brasileira de Bancos): o governo é o responsável pelos altos juros cobrados no Brasil, que são decorrentes da carga tributária, dos recolhimentos compulsórios exigidos pelo Banco Central e da dívida pública.

A propósito da dívida pública: o ano de 2005, o terceiro do governo Lula, bateu mais um recorde. A dívida líquida do setor público ultrapassou a casa do R$ 1 trilhão. Os dados são do Banco Central. Dois terços desse dinheiro dizem respeito ao endividamento do governo federal, no Brasil e no exterior. O resto pertence a Estados e municípios. A dívida cresce quando o governo gasta mais do que arrecada. No Brasil, o principal motivo desses gastos está nos juros. Em 2005, o setor público gastou R$ 157 bilhões em juros. Esse dinheiro acabou em boa parte nas mãos dos bancos, que fazem investimentos em títulos públicos emitidos pelo governo federal. O superávit primário de 2005, isto é, a economia feita pelo governo para pagar a dívida pública, foi de R$ 93,5 bilhões. Como se vê, não foi o suficiente para pagar os R$ 157 bilhões de juros. Ficou faltando a bagatela de R$ 63,5 bilhões.

A vida como ela é. Longe dos trilhões e dos bilhões, mas na casa dos milhões: 6,5 milhões de brasileiros vivem em favelas, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mais da metade dessa população, um contingente de 3,4 milhões de pessoas, vive nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, os mais “ricos” do país. Só a cidade do Rio tem 1,1 milhão de brasileiros vivendo em favelas. Em São Paulo, motor da economia do Brasil, 900 mil pessoas dormem todas as noites em moradias insalubres, sem esgoto e sem condições adequadas. A pior situação, porém, é a de Belém. Na capital paraense, 35% da população, ou seja, 450 mil pessoas, vivem em favelas. Boa parte em palafitas, construções de madeira erguidas sobre o rio.

A repórter Cleide Silva, de O Estado de S. Paulo, esteve na Vila da Barca, em Belém. A vida nas palafitas é perigosa, principalmente para as crianças. Elas são obrigadas a manter o equilíbrio nas passagens de madeira sobre o rio, com pouco mais de um metro de largura. Não podem se descuidar. A jornalista entrevistou Ana Lira Siqueira Serra, de 27 anos, mãe de três filhos. Um deles, Daniel Nícolas, caiu no rio quando tinha três anos. Por pouco não foi tragado pelas águas, que estavam altas após a chuva. A mãe conta:

– Ele afundou e quando voltou para cima o agarramos. Olhou para mim e disse: “Mãe, não morri”.

A Polícia Civil de Sergipe indicia Antônio Sérgio Ferrari, um dos principais auxiliares do prefeito de Aracaju, Marcelo Déda (PT). Ferrari foi presidente da Emurb (Empresa Municipal de Obras e Urbanização). Dirigia a empresa responsável por todas as obras públicas da capital sergipana. É acusado de lavagem de dinheiro, estelionato e uso de duplicatas frias.

A denúncia é a seguinte: ele apresentou ao Banco do Brasil quatro notas falsas de serviços da Companhia Vale do Rio Doce, para receber R$ 400 mil. O banco entrou com ação criminal no Ministério Público, com a explicação de que a empresa de Ferrari, a Cenários, usou o expediente para garantir a quitação de uma dívida no próprio banco. Diz o auxiliar do prefeito:

– Seria burrice ficar no cargo, seria sangrar todos os dias. Não poderia manchar a administração Déda com um problema pessoal.

Em depoimento à CPI dos Correios, Rogéria Costa Beber, apontada como beneficiária de R$ 13 milhões oriundos de transações que teriam causado prejuízos a fundos de pensão. Ela admite que o marido, Murilo de Almeida Rego, foi o autor das operações financeiras que provocaram as perdas. Ele é o filho do operador de mercado Haroldo de Almeida Rego, o Haroldo Pororoca. Rego, ex-assessor do prefeito de Nova Iguaçu (RJ), Lindemberg Farias (PT), também se diz amigo de Marcelo Sereno, o ex-secretário de Comunicação do PT investigado por suspeita de exercer influência no fundo de pensão Nucleos. Sereno atuava como homem de confiança do ex-ministro José Dirceu (PT-SP). Em seu depoimento, Rego informa que sua família tem 85 imóveis. Diz ele:

– O Marcelo Sereno é meu amigo e nunca conversamos sobre fundos de pensão nem sobre política.

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