Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

272
9/02/2006

O Conselho de Ética da Câmara rejeita, por 9 votos a 5, parecer que recomendava a cassação do ex-líder do PP, deputado Pedro Henry (MT). É o primeiro caso em que o Conselho de Ética derruba o voto do relator. Henry foi acusado por Roberto Jefferson de distribuir recursos do caixa 2 do PT para a bancada do PP, e de pressionar o líder do PTB, José Múcio (PE). Segundo Jefferson, ele queria o PTB participando do esquema do mensalão.

De acordo com o relator do caso Henry, deputado Orlando Fantazzini (PSOL-SP), houve uma “união espúria entre PP e PT”, resultado de reuniões das quais participaram, pelo PP, Henry, José Janene (PR) e Pedro Corrêa (PE). Teriam repassado R$ 4,1 milhões de caixa 2 ao PP. Trecho da entrevista de Jefferson à Folha de S.Paulo, publicada em 6 de junho de 2005:

– Me lembro de uma ocasião em que o Pedro Henry tentou cooptar dois deputados do PTB oferecendo a eles mensalão, que ele recebia de repasse do doutor Delúbio. E eu pedi ao deputado Íris Simões que dissesse a ele: se fizer, eu vou para a tribuna e denuncio. Morreu o assunto.

Em entrevista ao blog Nos Bastidores do Poder, do jornalista Josias de Souza, Jefferson reafirma que o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) propôs a partilha do esquema de Furnas Centrais Elétrica. E cita novamente o diretor de engenharia da estatal, Dimas Toledo. Jefferson fala da “sobra” de Furnas:

– Dava R$ 4 milhões. R$ 1 milhão ficaria para despesas de diretoria que o Dimas teria, R$ 1,5 milhão iria para o PTB e R$ 1,5 milhão para o PT todo mês.

– O senhor chegou a conversar sobre isso com o próprio Dimas?

– Sim. Ele esteve em minha casa, em abril do ano passado, a pedido do Zé Dirceu.

– Ele queria o quê?

– Formalizar o acordo. Me disse que ficaria para o PTB R$ 1,5 milhão por mês e para o PT R$ 1,5 milhão. Reforçou a conversa que o Zé Dirceu já havia acertado. Eu voltei ao Zé, contei os termos e perguntei: “Está fechado?” Ele disse: “Fechado”. Foi quando Lula deu para trás. Disse: “Não, esse cara é um traidor. Ele é tucano. Botamos R$ 1,5 milhão na Cemig, para fazer o programa Luz para Todos nas favelas, e ele só botou placa do governo do Aécio”.

– A proposta da partilha foi feita para que o senhor concordasse com a manutenção do Dimas?

– Exato. Quem ficava com tudo naquela época era o Delúbio. Tinha também um “grupo dos 12” do PSDB, que ficava com R$ 600 mil por mês. E três eu sei com certeza: Piauhylino, Osmânio Pereira e Salvador Zimbaldi.

O jornalista Janio de Freitas, da Folha de S.Paulo, comenta o trecho no qual Jefferson disse que “Lula deu para trás”, e aquele que o presidente afirmou que Toledo “é um traidor”, porque teria beneficiado o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB):

“O que está implícito na descrição feita por Jefferson é o conhecimento do esquema ilegal por Lula, na condição de palavra final e decisiva. A descrição faz depreender também que, não fosse a omissão em uma placa, o acordo seria aprovado. Lula não ‘daria para trás’ se, em outra afirmação de Jefferson, a verba mensal já existia e até então ficava para o PT e um grupo seleto de deputados de outros partidos.”

Na entrevista de 6 de junho de 2005 à Folha, Jefferson forneceu outros números do caixa 2 de Furnas. Falou em R$ 3 milhões, divididos da seguinte forma: R$ 1 milhão para o PT nacional, R$ 1 milhão para o PT de Minas Gerais, R$ 500 mil para a diretoria de Furnas e R$ 500 mil para um grupo de deputados. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, dá números diferentes:

– Dimas esteve na minha casa para tratar da partilha. No total eram R$ 4 milhões. R$ 1,5 milhão para o PT e R$ 1,5 milhão para o PTB mensais, além de R$ 400 mil para as despesas de diretoria que o Dimas teria. Outros R$ 600 mil eram para o grupo dos 12 do PSDB.

Jefferson relata à repórter Ana Paula Scinocca que, diante da recusa de Lula em manter Toledo em Furnas, o PTB tentou substituí-lo por Francisco Spirandel, ligado ao partido. Estava tudo acertado quando Veja publicou a matéria em que Maurício Marinho, o alto funcionário dos Correios ligado ao PTB, aparece em gravação pegando propina de R$ 3 mil. Eclode o escândalo do mensalão. Suspensa a posse de Spirandel. Diz Jefferson:

– É por isso que eu sempre disse que tinha o dedo da Abin. Isso aconteceu em razão de o PT querer caixa único.

O Estado também informa que Furnas realiza investimentos da ordem de R$ 1 bilhão por ano. A estatal federal é a responsável pela segunda maior parcela de geração de energia no Brasil, só perdendo para a Itaipu Binacional. A repórter Irany Tereza relaciona os supostos bens de Toledo, funcionário de Furnas durante 30 anos: apartamento na Barra da Tijuca (RJ), casa em Lorena (SP), três casas, apartamento e terreno em Resende (RJ), 15 alqueires de terra em Bocaina (MG) e três automóveis. E isso sem contar os imóveis transferidos aos filhos.

anterior | próxima | início