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Cronologia da Crise:

Março de 2006

1.03.2006

Os Estados Unidos divulgam relatório anual sobre o combate ao crime organizado no mundo. O Brasil e o escândalo do mensalão ocupam espaço de destaque. O documento cita as investigações desencadeadas por autoridades brasileiras contra “figuras públicas corruptas, incluindo inspetores de alfândega, autoridades federais tributárias e altas figuras políticas, e o uso de empresas offshore para lavagem de dinheiro”.

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2.03.2006

Depoimento à Polícia Federal. José Antonio Csapo Talavera, ex-superintendente administrativo da multinacional Toshiba, denuncia a empresa japonesa por integrar um “clube” que paga propina a dirigentes de estatais brasileiras e políticos no Congresso Nacional, para fazer negócios com o setor elétrico. Fazem parte da organização, além da Toshiba, as multinacionais WEG, Alston do Brasil, Asea Brown Boveri, GE (General Eletric) e Gevisa, esta última um consórcio entre a GE, Villares e Banco Safra.

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4.03.2006

A revista Veja traz reportagem de Alexandre Oltramari e Otávio Cabral. Afirma que o empresário Marcos Valério fez chantagem em conversas por telefone com o ex-deputado José Borba (PR), o ex-líder do PMDB na Câmara dos Deputados, acusado de receber R$ 2,1 milhões do caixa 2 do PT. Ele renunciou com medo de ser cassado. Valério teria exigido proteção da CPI dos Correios. Senão, acusaria um repasse de dinheiro a Borba, para comprar apoio da ala oposicionista do PMDB a fim de se manter no cargo de líder do partido.

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5.03.2006

O jornal Correio Braziliense reproduz trechos de uma conversa gravada. O ex-motorista do senador Romero Jucá (PMDB-RR), Roberto Jefferson Marques, admite que fez um saque de R$ 50 mil na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Marques comenta sua ida ao banco:

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8.03.2006

Depoimento à CPI dos Bingos. É de Francisco Chagas da Costa, o motorista que trabalhou entre março de 2003 e fevereiro de 2004 para a “república de Ribeirão Preto”. Serviu a assessores e outras pessoas ligadas ao ministro Antonio Palocci (PT-SP) em Brasília. São eles: Ademirson Ariosvaldo da Silva, Rogério Buratti, Vladimir Poleto e Ralf Barquete. Afirma ter visto o ministro “três vezes, mais ou menos”, na chamada “casa dos prazeres”, alugada no Lago Sul. Diz o motorista:

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9.03.2006

Em depoimento à CPI dos Bingos, Benedito Antonio Valencise, delegado seccional da Polícia Civil de Ribeirão Preto (SP), afirma dispor de notas fiscais e planilhas frias para indiciar o ministro Antonio Palocci (PT-SP) por crimes de peculato, falsidade ideológica e formação de quadrilha. De acordo com o delegado, houve um acordo entre o ex-prefeito Palocci e o dono da empreiteira Leão Leão, por meio do qual o chefe do executivo municipal transmitia ordens para que a superintendente do Daerp (Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto), Isabel Bordini, fraudasse os serviços de limpeza pública. Diz Valencise:

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10.03.2006

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o advogado Roberto Bertholdo, ex-assessor parlamentar do PMDB e ex-conselheiro da Itaipu Binacional, afirma ao repórter José Maschio que o deputado José Janene (PP-PR) e o doleiro Alberto Youssef têm um esquema para retirar dinheiro de estatais e destiná-lo ao pagamento de mensalões.

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11.03.2006

A revista Veja revela a identidade do ex-aliado do advogado Roberto Bertholdo, entrevistado na semana anterior. Trata-se de Antonio Celso Garcia, o Tony Garcia. Ele conta ao repórter Alexandre Oltramari que foi candidato a senador e tinha Bertholdo como suplente em sua chapa. Não se elegeu e acabou preso acusado de cometer fraude em consórcio. Em troca da liberdade, passou a colaborar com a Justiça. Atraía Bertholdo para conversas que eram gravadas pela polícia. Eis a entrevista de Tony Garcia a Veja:

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12.03.2006

O jornal O Estado de S. Paulo publica levantamento segundo o qual alguns dos principais expoentes do escândalo do mensalão controlam cargos federais dos mais cobiçados, mesmo depois de acusados de envolvimento no esquema de corrupção. Reportagem de Diego Escosteguy afirma que, com o aval do presidente Lula, os ex-deputados José Dirceu (PT-SP) e Valdemar Costa Neto (PL-SP) e o deputado José Janene (PP-PR) são os responsáveis por nomeações estratégicas para alguns dos 20 postos considerados os mais importantes do governo federal.

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13.03.2006

Dados levantados pela CPI dos Correios são estampados nas páginas da Folha de S.Paulo. O diretório nacional do PT emprestou R$ 1 milhão do Banestado (Banco do Estado do Paraná), entre 1999 e 2001, no período em que o partido era presidido pelo deputado cassado José Dirceu (PT-SP). O PT movimentou R$ 4,8 milhões em sua conta no Banestado. Sabe-se que em 2003, já no governo Lula, o Palácio do Planalto trabalhou contra a criação da CPI do Banestado. Os repórteres Rubens Valente e Leonardo Souza apontam que Dirceu, na época ministro da Casa Civil, destacou-se na tentativa de barrar as investigações. Pressionado, o governo acabou cedendo, mas emplacou o relator da comissão: o deputado José Mentor (PT-SP), um aliado de Dirceu.

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14.03.2006

Uma história que mistura pacotes de dinheiro, prostitutas e faz tremer os alicerces do governo Lula. O jornal O Estado de S. Paulo entrevista Francenildo Santos Costa, o caseiro da “casa dos prazeres”, a mansão alugada em Brasília pela chamada “república de Ribeirão Preto”. Ele complica de vez o ministro Antonio Palocci (PT-SP). Na “casa dos prazeres” houve festas animadas por garotas de programa, muitas vezes mulheres agenciadas por Jeany Mary Corner.

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15.03.2006

O caseiro Francenildo Costa concede entrevista coletiva. Confirma que o ministro Antonio Palocci (PT-SP) esteve várias vezes na “casa dos prazeres”, entre 2003 e 2004. De acordo com o caseiro, Palocci costumava freqüentar o lugar “quinta-feira sim, quinta-feira não”, além de alguns sábados e domingos.

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16.03.2006

Depoimento do caseiro Francenildo Costa à CPI dos Bingos é interrompido por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal). Autor do pedido de suspensão: senador Tião Viana (PT-AC). Atendeu a solicitação de Lula. No recurso, o senador petista alega que informações que pudessem ser prestadas por Francenildo não teriam relação com o objeto das investigações da comissão. O ministro Cezar Peluzo, do STF, concordou. Trecho do seu despacho:

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17.03.2006

O Ministério Público entra com ação contra Antonio Palocci (PT-SP) por improbidade administrativa. Requer à Justiça a condenação do então prefeito de Ribeirão Preto (SP), por ter contratado sem licitação a construção de uma ponte. Ocorreu em 2002. Palocci alegou a necessidade de uma obra emergencial. Não havia motivo. A Prefeitura gastou R$ 302 mil com o contrato.

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18.03.2006

A revista Veja traz detalhes de investigação conduzida pela Polícia Federal que implica em irregularidades os deputados B. Sá (PSB-PI) e Domiciano Cabral (PSDB-PB). B. Sá é próximo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Ele aparece em escutas telefônicas negociando suposta propina com a empreiteira OAS, responsável pela construção da barragem de Poço do Marruá, no sul do Piauí. É uma obra de R$ 106 milhões. Eis o primeiro diálogo, gravado em 29 de abril de 2005, entre B. Sá e Marcelo Queiroga, da OAS. Começa com o deputado:

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19.03.2006

Mais indícios da ligação entre Antonio Palocci (PT-SP) e a empreiteira Leão Leão. A Folha de S.Paulo publica entrevista com o corretor de imóveis Carlos Magalhães. Em 2003, ele intermediou o aluguel de uma casa no setor de mansões Dom Bosco, bairro nobre de Brasília, a integrantes da “república de Ribeirão Preto”. O imóvel foi alugado pelo grupo antes da “casa dos prazeres”. A locação, de R$ 9 mil, foi feita por Rogério Buratti e Ralf Barquete, em nome de um homem chamado Osvaldo. Ele seria ligado à Cinco Telecom, empresa da qual Buratti também é sócio.

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20.03.2006

O delegado Wilson Damázio, da Polícia Federal, admite que foi informado pelo próprio caseiro Francenildo Costa sobre os depósitos em sua conta na Caixa Econômica Federal. Ocorreu na noite de quinta-feira, dia 16, quando Francenildo pediu proteção policial. Naquela mesma noite, os extratos bancários do caseiro saíram da Caixa. Foram parar no dia seguinte no site da revista Época. Entre os documentos apresentados por Francenildo à Polícia Federal, portanto, estava o cartão da conta poupança na qual recebera os R$ 25 mil transferidos pelo pai. A Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça.

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21.03.2006

Não se fala em outra coisa nos círculos políticos de Brasília: a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa passou pelo gabinete da presidência da Caixa Econômica Federal. Os dados extraídos do sistema da Caixa, com a senha de um alto funcionário, teriam seguido às mãos do assessor de imprensa do ministro Antonio Palocci (PT-SP), o jornalista Marcelo Netto. E ele teria encaminhado a informação privilegiada à revista Época.

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22.03.2006

A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, determina a suspensão da análise dos comprovantes de despesas ligadas ao presidente Lula. O trabalho vinha sendo feito pelo Senado. Os pagamentos foram efetuados com dinheiro retirado de contas acessadas por cartões coorporativos. Um técnico do TCU (Tribunal de Contas da União) chegou a verificar os arquivos da presidência da República durante 20 dias. Foi proibido de prosseguir com a apuração. A oposição suspeita de irregularidades. A Casa Civil justifica a medida, com a alegação de riscos para a segurança de Lula e de seus familiares.

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23.03.2006

O governo Lula decide envidar esforços para salvar Antonio Palocci (PT-SP). Em vez de investigar as acusações de Francenildo Costa contra o ministro, a Polícia Federal trata de anunciar a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do caseiro. Ele é o escolhido para ser investigado pelos federais, sob comando do ministro Márcio Thomaz Bastos. O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, ligado ao Ministério da Fazenda) também abre uma investigação contra o rapaz. Os estrategistas do PT tentam desesperadamente descobrir motivação política para encobrir o que Francenildo viu na “casa dos prazeres”. Em vão.

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24.03.2006

O ministro Antonio Palocci (PT-SP) sai do isolamento. Monta um circo para fazer uma aparição pública em evento da Câmara Americana de Comércio, em São Paulo. A assessoria de Palocci pressionou para confinar jornalistas numa sala. Queria que assistissem ao discurso por um telão. A proposta não foi aceita. Repórteres e fotógrafos acabam em área cercada por cordão de isolamento no salão principal do prédio. Os profissionais de imprensa só têm acesso à área reservada depois da saída do ministro.

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25.03.2006

A imprensa reúne informações sobre os bastidores da crise. A revista Época noticia que quinta-feira à tarde, dia 23, os ministros Antonio Palocci (PT-SP), Márcio Thomaz Bastos e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, mantiveram encontro sigiloso, no Palácio do Planalto. Palocci também teria se reunido com Lula. A reportagem de Gustavo Krieger relata que Mattoso disse ser impossível negar que o acesso aos extratos de Francenildo foi executado em computador nas dependências da Caixa.

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26.03.2006

A Folha de S.Paulo publica o editorial de primeira página “Abuso de poder”. O jornal afirma:

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27.03.2006

Caem Antonio Palocci (PT-SP) e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso. Lula aceita o pedido de demissão do ministro da Fazenda, embora a orientação a assessores do Palácio do Planalto fosse a de divulgar que Lula exonerara Palocci. O destino do superministro é selado durante depoimento de Mattoso à Polícia Federal. O presidente da Caixa confessa que entregou pessoalmente a Palocci os extratos bancários de Francenildo. Mattoso é indiciado por violação ilegal de sigilo.

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28.03.2006

Lula faz discurso em cerimônia de despedida de Antonio Palocci (PT-SP), durante a solenidade de posse do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Diz Lula:

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29.03.2006

O mensalão existiu. A CPI dos Correios divulga o relatório final das investigações. Rejeita a tese defendida pelo PT e o Palácio do Planalto, segundo a qual os pagamentos efetuados a deputados da base aliada do governo faziam parte apenas de um esquema de caixa 2, com vistas a quitar despesas de campanhas eleitorais. O documento assinado pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), o relator dos trabalhos, afirma:

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30.03.2006

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 9 votos a 4, o pedido de cassação do mandato do deputado José Mentor (PT-SP), acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Ele recebeu R$ 120 mil de Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério, cujo indiciamento também foi solicitado pela CPI dos Correios, sob a acusação de falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

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