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Cronologia da Crise:

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12/03/2006

O jornal O Estado de S. Paulo publica levantamento segundo o qual alguns dos principais expoentes do escândalo do mensalão controlam cargos federais dos mais cobiçados, mesmo depois de acusados de envolvimento no esquema de corrupção. Reportagem de Diego Escosteguy afirma que, com o aval do presidente Lula, os ex-deputados José Dirceu (PT-SP) e Valdemar Costa Neto (PL-SP) e o deputado José Janene (PP-PR) são os responsáveis por nomeações estratégicas para alguns dos 20 postos considerados os mais importantes do governo federal.

Conforme o levantamento, Dirceu é o autor das indicações para os cargos de diretor de Finanças de Itaipu, presidente da BR Distribuidora, diretor de Exploração e Petróleo e diretor de Serviços da Petrobrás. Além disso, divide com o senador Carlos Wilson (PTB-PE) a indicação do diretor de Engenharia da Infraero e, com Janene, o cargo de diretor de Abastecimento da Petrobrás. Janene também seria o autor da indicação do presidente do Denatran.

Valdemar, por sua vez, nomeou o diretor de Infra-Estrutura e o presidente do Dnit. O PT indicou cinco dos 20 cargos mais importantes: o diretor de Finanças da Petrobrás, o diretor de Mercado Consumidor da BR Distrbuidora, a diretora do Fundo da Marinha Mercante e os diretores de Tecnologia e Comercial dos Correios.

Fazem parte da lista, ainda, as indicações do ministro Antonio Palocci (PT-SP) para a presidência do Serpro, do senador Delcídio Amaral (PT-MS) para a Diretoria Internacional da Petrobrás, do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) para a presidência da Transpetro e do PMDB para as superintendências da Receita Federal do porto de Santos (SP) e do aeroporto de Guarulhos (SP).

Os 20 cargos são visados pelo volume de recursos dos contratos gerenciados. A Petrobrás, por exemplo, faz investimentos de R$ 23 bilhões por ano. É curioso o caso de Valdemar, que renunciou para evitar a cassação do mandato. Ele aumentou seu poder junto a Lula durante a crise política. Passou a controlar todo o Dnit (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes), em troca da mobilização que fez para eleger um aliado do presidente à presidência da Câmara, o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP).

O presidente do Dnit, Mauro Barbosa, está coordenando, entre outras coisas, os gastos de R$ 500 milhões da operação tapa-buracos nas estradas, desencadeada pelo governo federal. Ironia do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), durante a sessão do Senado que aprovou com sucesso o nome de Barbosa para o Dnit:

– Não sei por que tanto empenho para aprovar um cargo. Não deve ser coisa boa.

Do senador Jefferson Péres (PDT-AM):

– O escândalo não serviu de lição.

Do diretor da Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo:

– Os mesmos mecanismos que geraram o escândalo são usados por Lula para administrar a crise. Certamente podemos esperar mais casos no futuro.

A Folha de S.Paulo denuncia que a Lightpar, uma subsidiária da Eletrobrás, mantém cargos indicados pelo PT e pelo PMDB no Rio de Janeiro, com salários mensais de R$ 14.350,00. A matéria assinada pelo repórter Fernando Canzian informa que, segundo a Aeel (Associação dos Empregados da Eletrobrás), 40 assessores nomeados para altos cargos na estatal federal representam gastos mensais de R$ 600 mil, uma média salarial de R$ 15 mil cada um. Por ano, os altos funcionários significam gastos de R$ 7,2 milhões.

No caso da Lightpar, o ex-presidente Joaquim de Carvalho denunciou que a empresa existia “só para pagar salários” a pessoas sem maiores atividades. Ele assumiu o cargo em março de 2005, pouco antes de explodir o escândalo do mensalão, no lugar do ex-deputado José Eudes (PT), preso em flagrante num motel do Rio em companhia de um garoto de 17 anos.

Depois do afastamento de Carvalho, Rogério Silva, ex-auxiliar da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT), assumiu a presidência da Lightpar. O diretor financeiro, Nelson Rocha, é ex-secretário da Fazenda da ex-governadora Benedita da Silva (PT-RJ). É o único do Rio. Os outros diretores, Márcio Siqueira e Carlos Evandro, são ligados ao PMDB de Minas Gerais.

Além dos salários de R$ 14.350,00, os diretores de fora do Rio recebem adicional de R$ 1.800,00 mensais, em nome de um auxílio-moradia. Apesar do adicional, teriam dado a si próprios outros R$ 28.700,00 para custear supostas despesas com mudanças. Nos primeiros sete meses de 2005, a Lightpar acumulou déficit de R$ 742 mil. As despesas são maiores que as receitas.

Depois que a Lightpar foi procurada pela reportagem da Folha de S.Paulo, curiosamente, desapareceram dois livros com informações financeiras da empresa.

A Folha noticia a descoberta de novas evidências do esquema de corrupção em Ribeirão Preto (SP), durante o segundo mandato do prefeito Antonio Palocci (PT). Depoimentos e gravações telefônicas trazem indícios de como se dava o retorno de dinheiro a integrantes do governo petista, depois que valores a mais eram pagos pela administração municipal à empreiteira Leão Leão.

Em conversa telefônica interceptada com autorização da Justiça em julho de 2004, Wilney Barquete, o então presidente da Leão Ambiental, braço da Leão Leão, mantém conversa com a secretária Fernanda Raphael Borges, na qual é revelada uma remessa de dinheiro à Prefeitura. O diálogo começa com a secretária:

– Wilney, estou com aquele envelope que eu mando lá todo mês, sabe?

– Ah, sei, sei.

– Eu posso mandar?

– Pode, pode. Normal.

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