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Cronologia da Crise:

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17/03/2006

O Ministério Público entra com ação contra Antonio Palocci (PT-SP) por improbidade administrativa. Requer à Justiça a condenação do então prefeito de Ribeirão Preto (SP), por ter contratado sem licitação a construção de uma ponte. Ocorreu em 2002. Palocci alegou a necessidade de uma obra emergencial. Não havia motivo. A Prefeitura gastou R$ 302 mil com o contrato.

Em entrevista ao repórter Leonardo Souza, da Folha de S.Paulo, o motorista Francisco Chagas da Costa reafirma as declarações do caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo. De fato, ambos levaram um envelope com dinheiro, a pedido de Vladimir Poleto, ao estacionamento do Ministério da Fazenda. Ali, a encomenda foi entregue a Ademirson Ariosvaldo da Silva, o secretário particular do ministro Palocci. O repórter pergunta sobre a relação de Palocci com o advogado Rogério Buratti:

– Sempre que o Buratti vinha a Brasília ele se encontrava com Palocci?

– Quando não se encontravam, se falavam no telefone.

– O senhor presenciou encontros de Palocci com Buratti?

– Às vezes em que se encontravam era na casa.

– Quantas vezes eles se encontraram na casa?

– Não sei, muitas vezes. Se eu falar dez vezes, quatro vezes, estou mentindo, né? Muitas vezes.

– O senhor viu Palocci na casa?

– Eu vi ele entrando na casa. Ele ia de carro.

– Em que carro?

– Um Pegeout prata, de propriedade do Ralf Barquete.

O site da revista Época na internet divulga extratos bancários do caseiro Francenildo Costa. Pertencem a uma conta da Caixa Econômica Federal. A agência fica no Lago Sul, em Brasília. Os documentos bancários, sigilosos, foram emitidos às 20h58 da noite anterior. Mostram depósitos de R$ 25 mil na conta do caseiro. Palocci vai cair.

Época também publica que Francenildo reconhece a autenticidade dos extratos, e afirma que o dinheiro veio de seu pai biológico, o empresário Eurípedes Soares da Silva, dono de uma pequena empresa de ônibus em Teresina. Ele havia mandado o dinheiro em segredo, pois nunca reconhecera Francenildo como filho. Escondera a vida toda o relacionamento com a mãe do caseiro. Eurípedes confirma aos repórteres Andrei Meireles e Gustavo Krieger a autoria dos depósitos.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, a mãe de Francenildo Costa, a lavadeira desempregada Benta Maria dos Santos Costa, confirma que Eurípedes é o pai do rapaz. Ela explica ao repórter Expedito Filho que o empresário fez um acordo com o caseiro, para evitar que o assunto fosse parar na Justiça. A família de Eurípedes não sabe que Francenildo é filho dele. Diz Benta Maria:

– O Eurípedes começou a enviar o dinheiro porque ficou com medo de Nildo entrar na Justiça e obter registro com o nome do pai.

Benta Maria concedeu entrevista em Nazária (PI), onde vive:

– Meu filho é um simples caseiro sim, mas criei ele sozinha para ser um homem honesto e falar toda a verdade. O que adianta ser filho de papai e mamãe e não falar a verdade?

O repórter também ouve o pai de Francenildo. Diz Eurípedes:

– Para me amedrontar, ele disse que falaria para minha família. Aí, me derrubou todinho. Mandei o dinheiro para evitar um escândalo para minha mulher e minhas duas filhas.

Os extratos publicados por Época caem como uma bomba em Brasília. Da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL):

– Esse governo consegue liminar para proteger os direitos sexuais do Palocci e seus esquemas de corrupção, e invade os direitos individuais de um rapaz.

Do senador Pedro Simon (PMDB-RS):

– A CPI até agora não conseguiu quebrar o sigilo de Paulo Okamotto, mas o caseiro teve a conta devassada um dia depois de o STF nos proibir de ouvi-lo.

Em entrevista, Francenildo manifesta indignação:

– Mexeram nas minhas contas. O que posso esperar mais? Por que fizeram isso comigo? Por que não fizeram com o chefe?

Em Santa Catarina, Lula é enfático:

– Eu devo muito, mas muito de tudo o que nós fizemos, a um homem chamado Antonio Palocci.

E acrescenta:

– Ele não pediu demissão. Se pedisse, eu não aceitaria.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, descarta a abertura de investigação contra o ministro da Fazenda:

– A Polícia Federal, nesses três anos, nunca se prestou a esse tipo de exploração política, e não será agora que vai fazê-lo. Palocci está fazendo um grande trabalho pelo país, é merecedor de toda a confiança do presidente Lula, do governo e da sociedade, e não será afastado do cargo.

O juiz Dorival Moreira dos Santos, de Campo Grande, determina que a família do governador do Mato Grosso do Sul, José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, devolva ao Estado a administração do terminal portuário de Porto Murtinho (MS), localizado na cidade natal do governador. Seus parentes o controlavam desde agosto de 2003. O juiz condena a família de Zeca a ressarcir os cofres públicos. O valor será calculado. A medida inclui também o deputado Vander Loubet (PT-MS), sobrinho do governador.

O terminal portuário, avaliado em R$ 12 milhões, foi entregue à iniciativa privada em 2001, no primeiro mandato de Zeca. A medida ocorreu após o trabalho de uma comissão da qual fazia parte Heitor Miranda dos Santos, irmão do governador. Dois anos depois, porém, o consórcio vencedor vendeu 60% das ações para as empresas Integrasul e Riopar. Na época, Zeca já estava no segundo mandato de governador. A mudança no controle da administração do terminal foi autorizada por Vander Loubet, o sobrinho e então secretário de Infra-Estrutura de Mato Grosso do Sul. A Integrasul pertence a Ozório e Fábio, respectivamente irmão e sobrinho de Zeca. A Riopar está em nome de Myrian dos Santos, mulher de Heitor, o outro irmão do governador.

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