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Cronologia da Crise:

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18/03/2006

A revista Veja traz detalhes de investigação conduzida pela Polícia Federal que implica em irregularidades os deputados B. Sá (PSB-PI) e Domiciano Cabral (PSDB-PB). B. Sá é próximo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Ele aparece em escutas telefônicas negociando suposta propina com a empreiteira OAS, responsável pela construção da barragem de Poço do Marruá, no sul do Piauí. É uma obra de R$ 106 milhões. Eis o primeiro diálogo, gravado em 29 de abril de 2005, entre B. Sá e Marcelo Queiroga, da OAS. Começa com o deputado:

– Meu filho olhou às 11 horas e não tinha caído.

– Não. Caiu às 15 horas. Só foi uma parte. A outra, segunda. Já me confirmaram: 9.1. E o restante... 9.5, desculpa. E o restante, segunda.

– Tá legal. Tá bom.

O segundo diálogo, entre os mesmos personagens, ocorreu em 23 de maio de 2005. Também começa com B. Sá:

– Eu não tive notícia daqueles assuntos.

– Vou ter notícias, acho que umas 10 horas, e ligo para o senhor. (...)

– Jogue nesse seu superior...

– Sim...

– Pra ver se eu recebo o volumoso.

– A diferença, ok.

– Isso, porque é fundamental para mim, rapaz. Isso aí me resolve tudo. Eu vou ficar eternamente grato aí a vocês.

Já as escutas que envolvem Domiciano Cabral trazem o deputado tratando de negócios com o sogro, o empresário Julião Medeiros. O diálogo menciona o ministro Alfredo Nascimento (PL-AM), dos Transportes, e o deputado Sandro Mabel (PL-GO). O sogro refere-se ao Dnit (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes) como se fosse o antigo Dner. A conversa entre os dois foi gravada em 6 de abril de 2005. Começa com o deputado:

– No sábado, eu tô aí. O senhor me dê isso que estou para conversar com o ministro.

– Taí, se esse dinheiro do Dner sair, você pega uma boa bolada para a campanha.

– Quanto o senhor tem? 6, é?

– Do Dner, tenho não. Dá uns 2.

– Porque eu tô para resolver esse negócio com o partido dele. No mês passado, ele ligou para mim de madrugada querendo que eu tomasse uma posição, e eu hoje tive com ele. E eu também procurei um camarada. Cê se lembra que nós brigamos por uma obra no Tocantins que tinha um deputado no meio, de Goiás, Sandro Abel? (...) Hoje, ele é líder do PL e eu tô conversando com ele. Se tivesse uma coisa...

– Se tivesse uma coisa de obra boa, grande... Eu tô com a documentação toda em ordem.

– Tá bom.

A Folha de S.Paulo publica detalhes do monitoramento telefônico efetuado pela Polícia Federal sobre as atividades do ex-deputado José Borba (PMDB-PR), que renunciou ao mandato para não correr o risco de ser cassado por envolvimento no escândalo do mensalão. O repórter José Maschio relata que Borba continuou a despachar no gabinete da liderança do PMDB na Câmara dos Deputados, mesmo após abrir mão do mandato.

Outro que ocupava o gabinete era o assessor do partido e advogado Roberto Bertholdo, preso posteriormente em conseqüência dos trabalhos da CPI do Banestado. Numa das gravações, ambos discutem meios para ganhar R$ 16 milhões. Referem-se a uma licitação que prevê a compra de navios para a Transpetro, uma subsidiária da Petrobrás.

A Transpetro é presidida pelo ex-senador cearense Sérgio Machado. Ele foi indicado para o cargo pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos principais aliados de Lula no Congresso. Gravação registra conversa entre Bertholdo e uma secretária da Transpetro, a respeito de uma reunião na sede da empresa, no Rio. Bertholdo afirma que Borba já havia conversado com Machado sobre o assunto a ser tratado no encontro. Depois da reunião, Bertholdo conversa com Borba e define os acertos:

– É bom para o Machado. Ele gostou muito. Agora, só não faz se não quiser.

Procurado pelo repórter, Machado confirma ter se reunido com Bertholdo, mas diz não se lembrar do assunto tratado:

– Olha, acho que a conversa foi tão banal que eu não me lembro do que conversamos.

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