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Cronologia da Crise:

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28/03/2006

Lula faz discurso em cerimônia de despedida de Antonio Palocci (PT-SP), durante a solenidade de posse do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Diz Lula:

– E eu posso te dizer, Palocci, que se é verdade que nem todo irmão é um grande companheiro, é verdade que um bom companheiro é um grande irmão. É por isso que posso te dizer, Palocci, independentemente deste momento que estamos vivendo agora, eu posso lhe dizer: a nossa relação é de companheiro, possivelmente mais do que a relação de irmão.

Trecho do editorial “Uma crise de governo”, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo:

“Eis a essência da crise até aqui: o mais importante e respeitado ministro do governo Lula e o presidente do segundo maior banco comercial público do país tentaram enxovalhar o humilde trabalhador que teve o desplante de afirmar, com pencas de detalhes, que o ministro mentiu ao Congresso quando negou ter ido ao casarão onde a patota de Ribeirão Preto fazia das suas. Não só fracassaram, como deixaram claro o quanto são capazes de descer – não fossem eles fiéis cumpridores do código de ética petista.”

A imprensa reconstrói os momentos críticos da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Em reunião no Palácio do Planalto, na manhã de 16 de março, Lula e os ministros Palocci e Márcio Thomaz Bastos, entre outros, decidiram entrar com medida junto ao STF (Supremo Tribunal Federal) para impedir o depoimento de Francenildo à CPI dos Bingos. Obtiveram sucesso.

Durante aquela tarde, Palocci e Jorge Mattoso voltaram a se reunir no Palácio do Planalto, na sala ocupada pelo ministro, vizinha ao gabinete de Lula. Foi quando Palocci pediu a violação do sigilo bancário. Mattoso cumpriu a determinação.

As suspeitas sobre Francenildo vinham de informações de um jardineiro. Ele contara a uma jornalista de O Globo que o caseiro dispunha de dinheiro para comprar um terreno ou uma casa. Naquela mesma noite, o presidente da Caixa telefonou para Palocci e informou que havia movimentações consideradas atípicas na conta bancária do caseiro. Ambos julgavam que o dinheiro seria suborno da oposição, para que Francenildo atacasse Palocci.

Mattoso se dirigiu em seguida à casa do ministro. Chegou lá às 23 horas. Entregou-lhe os extratos e saiu em cinco minutos. Já estavam no local Daniel Goldberg, secretário de Direito Econômico do governo federal, um dos principais auxiliares do ministro Márcio Thomaz Bastos. Também aguardava os extratos o jornalista Marcelo Netto, assessor de Palocci.

Coube a Netto a tarefa de divulgar os documentos bancários para a revista Época, onde trabalha seu filho, o repórter Matheus Leitão. Importante, ainda: já havia passado pela casa do ministro Palocci o chefe de gabinete do ministro Márcio Thomaz Bastos, Cláudio Alencar. Goldberg e Alencar, aliás, estiveram duas vezes na casa de Palocci, naquele fatídico 16 de março.

A revista Veja relata que no auge da crise, no dia 23, Mattoso voltou à casa de Palocci, onde encontrou o advogado Arnaldo Malheiros, amigo de Márcio Thomaz Bastos. Durante a conversa, surgiu a proposta de oferecer R$ 1 milhão para algum funcionário da Caixa assumir a autoria da quebra do sigilo. Informação adicional: Malheiros exerceu o papel de advogado dos ex-dirigentes do PT Delúbio Soares e Silvio Pereira, com honorários pagos pelo PT.

Veja revela, ainda, que Mattoso contou toda a história da violação do sigilo bancário de Francenildo ao presidente Lula, em 24 de março. Ou seja, confessou o crime executado a mando de Palocci, 72 horas antes do afastamento do ministro. Lula nada fez.

Outro dado importante, noticiado pela Folha de S.Paulo: Márcio Thomaz Bastos foi informado por seus assessores da reunião da noite do dia 16 na casa de Palocci, logo no dia seguinte, 17. Foi o dia em que a revista Época divulgou os extratos. Mesmo de posse da informação, o ministro da Justiça só teria contado a Lula o que ocorrera no dia 20. Estranho. Principalmente porque Márcio Thomaz Bastos continuava a elogiar Palocci, em todas as oportunidades.

De qualquer forma, Lula tinha informações comprometedoras contra seu ministro da Fazenda ao menos uma semana antes da demissão ser consumada. Fez que não sabia? Ora, Palocci ocupava uma sala ao lado do gabinete do presidente no Palácio do Planalto. Tinha acesso livre à sala de Lula. Como imaginar que o presidente desconhecia a conspiração urdida contra o caseiro Francenildo? Declaração do deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA):

– As informações de envolvimento de assessores do ministro da Justiça na quebra do sigilo mostram que há corrupção sistêmica no governo. Todos os que estão ao redor de Lula estão contaminados.

O deputado José Janene (PP-PR), acusado de envolvimento no escândalo do mensalão, envia ofício ao Conselho de Ética da Câmara. Solicita a suspensão dos depoimentos de testemunhas no processo que examina a cassação de seu mandato. Janene argumenta que está em licença médica e os depoimentos, sem a sua presença, vão prejudicar o direito de defesa.

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