Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

295
4/03/2006

A revista Veja traz reportagem de Alexandre Oltramari e Otávio Cabral. Afirma que o empresário Marcos Valério fez chantagem em conversas por telefone com o ex-deputado José Borba (PR), o ex-líder do PMDB na Câmara dos Deputados, acusado de receber R$ 2,1 milhões do caixa 2 do PT. Ele renunciou com medo de ser cassado. Valério teria exigido proteção da CPI dos Correios. Senão, acusaria um repasse de dinheiro a Borba, para comprar apoio da ala oposicionista do PMDB a fim de se manter no cargo de líder do partido.

Mais: Valério iria denunciar que deputados do PMDB recebiam o mensalão, e que entregou dinheiro para Borba pagar o apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho, em 2004. Em troca, usaria seu programa no SBT como palanque para Lula e a então candidata à reeleição em São Paulo, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT). De fato, Ratinho fez uma entrevista com o presidente durante um churrasco na Granja do Torto, e repetiu várias vezes alguns trechos da gravação em seu programa de televisão.

Veja relata as “relações estreitas” de Borba e Valério. Descreve quatro reuniões entre os dois, de setembro de 2004 a março de 2005. Ocorreram no hotel Sofitel, em São Paulo. Participaram Delúbio Soares, o então tesoureiro do PT, e o advogado Roberto Bertholdo, o assessor de Borba que fora nomeado pelo governo Lula para o Conselho de Administração da Itaipu Binacional.

De acordo com a revista, Borba seguia para Brasília depois das reuniões. Numa sala da Câmara dos Deputados, recebia filas de deputados do PMDB. Diz a reportagem:

“Mas havia uma logística curiosa: os deputados entravam na saleta um a um, nunca em grupo. O entra-e-sai ocorria quase sempre à noite.”

Os repórteres entrevistaram um ex-aliado do advogado Bertholdo, não identificado pela revista. Ele afirma que 55 deputados do PMDB da base de apoio ao governo federal recebiam mensalões. Variavam de R$ 15 mil a R$ 200 mil, conforme o cacife de cada um. O entrevistado da revista conta que uma vez Bertholdo lhe mostrou, dentro de um jatinho particular, uma caixa de papelão com R$ 8 milhões em dinheiro vivo. Bertholdo teria afirmado que não ficava com medo:

– Que perigo, o quê? Eu tô operando para o governo.

O advogado Sérgio Renato Costa Filho gravou conversas que manteve com Bertholdo, seu ex-sócio. Uma delas remete ao caso do pagamento ao apresentador Ratinho. Diz Bertholdo na gravação:

– Na segunda-feira eu vou, eu e o Ratinho e o Borba, no avião do Ratinho, pra pegar o Delúbio, que é o tesoureiro. Pra fazer um acerto de uns cinco paus.

“Cinco paus” seriam R$ 5 milhões. Em outra gravação, Bertholdo menciona o diretor-geral da Itaipu Binacional, o petista Jorge Samek. Ele teria cobrado US$ 6 milhões de propina da empresa Voith Siemens, para perdoar uma dívida. Este o diálogo dos dois advogados, logo após Bertholdo falar dos US$ 6 milhões:

– 6 paus em dólar?

– É, temos que pegar pelo menos três.

– Sim.

– (...) Se quiserem me tirar do Conselho, não me tiram por causa do PMDB. É minha função lá dentro.

– Sim, claro.

– (...) O Samek não põe a gente pra dentro do jogo. Vai tomar no c...

– Eu também acho. Podia ter chamado...

– Não. Podiam falar: “Ó, tamo fazendo...”

– Então...

– E aí pegar como doação de campanha, mesmo...

– Hum-hum.

– Com gosto.

– Hum-hum.

A reportagem de Veja informa que Samek integra o seleto grupo de amigos de Lula. Costuma participar de churrascos e festas na Granja do Torto. Samek já foi próximo de Bertholdo. Pegou carona em viagens para Brasília no jatinho do advogado, na época em que Bertholdo fazia parte do Conselho de Administração de Itaipu. Bertholdo está preso em Curitiba. É acusado de vários crimes, entre os quais grampear um juiz federal, vender sentenças judiciais, lavar dinheiro, fazer tráfico de influência e o de torturar o ex-sócio Sérgio Renato, para se apoderar das fitas que ele gravou.

Em outra matéria de Veja, os repórteres Marcio Aith e Fábio Portela revelam detalhes do depoimento prestado pelo advogado Rogério Buratti à Polícia Civil de São Paulo, em 4 de fevereiro. O conteúdo fora mantido em sigilo até então, a pedido do ministro Antonio Palocci (PT-SP).

Buratti disse que o ex-prefeito Palocci negociou para si mesmo o pagamento de propina de R$ 50 mil, num acordo com a Leão Leão. Lembre-se que a empresa é uma prestadora de serviços em Ribeirão Preto (SP). Buratti foi vice-presidente da Leão Leão, depois que deixou o cargo de secretário de Governo do ex-prefeito Palocci.

Mais uma: apesar de admitir que a maior parte dos R$ 50 mil era repassada ao ex-tesoureiro Delúbio Soares, Palocci reservava para si uma parte. Em troca da propina, o então prefeito de Ribeirão organizou um sistema contábil fraudulento: a Leão Leão recebia da administração municipal uma quantia sempre maior do que os serviços efetivamente prestados.

Em outra parte do depoimento, Buratti afirma que o relacionamento entre Palocci e a Leão Leão era tão próximo que o prefeito dispunha de uma reserva financeira para usar como bem entendesse. Depois de virar ministro da Fazenda, a propina de R$ 50 mil continuou a ser paga pela empreiteira, com o conhecimento de seu sucessor, o prefeito Glberto Maggioni (PT).

anterior | próxima | início