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Cronologia da Crise:

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8/03/2006

Depoimento à CPI dos Bingos. É de Francisco Chagas da Costa, o motorista que trabalhou entre março de 2003 e fevereiro de 2004 para a “república de Ribeirão Preto”. Serviu a assessores e outras pessoas ligadas ao ministro Antonio Palocci (PT-SP) em Brasília. São eles: Ademirson Ariosvaldo da Silva, Rogério Buratti, Vladimir Poleto e Ralf Barquete. Afirma ter visto o ministro “três vezes, mais ou menos”, na chamada “casa dos prazeres”, alugada no Lago Sul. Diz o motorista:

– Foi lá, ia lá. Mas não em festa. Durante o dia, mas sem festa. Não sei o que ia fazer. Foi poucas vezes. (...) Umas três vezes, mais ou menos. Eu o vi entrando na casa.

Recorde-se que, em janeiro, Palocci foi questionado pelo senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), relator da CPI dos Bingos, sobre a casa alugada por Poleto, que pagou R$ 60 mil em dinheiro pela locação, o equivalente a seis aluguéis. Durante o depoimento de Palocci, o relator perguntou:

– Vossa excelência não esteve nenhuma vez na casa que ele alugou no Lago Sul?

– Aqui em Brasília?

– Sim.

– Não, nenhuma vez.

– A casa que era utilizada para reunir empresários.

– Não estive nenhuma vez.

Francisco Chagas afirma que Palocci foi à “casa dos prazeres” sem carro oficial. Usou o automóvel Peugeot de Barquete, o assessor da presidência da Caixa Econômica Federal nomeado para o cargo por influência de Palocci. Barquete morreu em 2004. Ele foi um auxiliar importante de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto. Outra declaração espinhosa do motorista:

– Eles faziam festa e levavam as meninas para a casa. Eu levei as meninas, sim. Várias vezes. Deixava lá.

As “meninas” são garotas de programa agenciadas por Jeany Mary Corner. Perguntado se a conhecia, o motorista afirma:

– Essa era a mulher que arrumava as meninas para a casa. Fazia festas e levava para a casa. Cheguei a vê-la duas vezes.

Francisco Chagas refere-se a Ademirson. Descreve como o secretário particular de Palocci se referia ao ministro:

– Eu ouvia falar: “Tenho uma reunião com o chefão”. “Temos de falar com o chefão tal hora”. Podia ser ele, eles não falavam ministro Palocci, não. Falavam chefão. Quando queriam falar com o chefão, pediam para ir ao Ministério da Fazenda.

O motorista relata que transportou duas vezes para a “casa dos prazeres” o empresário Roberto Carlos Kurzweil, dono do automóvel no qual teriam sido trazidos dólares de Cuba para o PT. Uma terceira vez levou-o do hotel em que estava hospedado ao Ministério da Fazenda, para onde também se dirigiram dois empresários de jogo angolanos. Seriam José Paulo Teixeira Figueiredo e Artur José Valente Caio. Segundo Buratti, ambos doaram R$ 1 milhão para a campanha de Lula em 2002.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Buratti volta a confirmar o jantar em 2002 do qual participaram Palocci e os dois empresários angolanos. Foi na casa do empresário Roberto Carlos Kurzweil, em São Paulo. O empresário conhece o ministro desde 1991. Uma das empresas dele, a Rek, cuidava da coleta de lixo em Ribeirão Preto, quando Palocci era vereador. Prefeito, Palocci aumentou o número de serviços prestados pela Rek. Diz Buratti:

– Soube desse jantar por causa das relações que tinha com o Palocci. Eu não vi o dinheiro para a campanha sendo entregue, mas essas coisas ninguém vê. Mas tenho certeza absoluta de que a contribuição aconteceu. Não tenho dúvidas.

Depoimento à CPI dos Bingos. Marilene do Nascimento Falsarella, ex-chefe da seção de obras gerais de Ribeirão, afirma que é a autora das planilhas de medição de serviços de limpeza pública adulteradas para superfaturar pagamentos à empreiteira Leão Leão. A fraude aconteceu entre 2001 e outubro de 2004. Diz a funcionária:

– Era nessa planilha que se lavava a saída do dinheiro. Eram mais ou menos R$ 400 mil por mês, era muito dinheiro.

O esquema teria permitido um desvio de R$ 17,2 milhões. Marilene afirma que ela e outros funcionários obedeciam às ordens de Mauro Pereira Júnior, chefe de divisão do Daerp (Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto). Ele teria pedido para ser afastado por não aceitar mais a manipulação de dados, uma determinação de sua superior, Isabel Bordini. Ela é mulher de Donizete Rosa, assessor do prefeito Palocci levado para o governo Lula, onde assessora o setor de processamento de dados. Diz Marilene:

– O Mauro sempre contava que não concordava com o valor a maior, que não estava certo, mas era obrigado a fazer aquilo. O comentário entre as pessoas era que era um absurdo colocar aquela quantia a maior. O serviço não tinha sido feito.

Em votação secreta, a Câmara dos Deputados absolve dois deputados acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Roberto Brant (PFL-MG) recebeu R$ 102 mil do esquema de Marcos Valério. O dinheiro foi sacado por um assessor, Nestor Francisco de Oliveira. O outro deputado é Professor Luizinho (PT-SP), cujo assessor José Nilson dos Santos fez retirada de R$ 20 mil do valerioduto. Brant recebe 283 votos a favor da absolvição. Outros 156 deputados pedem a cassação do mandato. Necessita-se de pelo menos 257 votos para efetivar a cassação. Luizinho teve 253 votos pela absolvição e 183 pela perda do mandato.

Outros dois deputados já haviam sido absolvidos pelo plenário da Câmara: Sandro Mabel (PL-GO) e Romeu Queiroz (PTB-MG). E quatro renunciaram para fugir da cassação: Valdemar Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), José Borba (PMDB-PR) e Paulo Rocha (PT-PA). Apenas dois foram cassados: Roberto Jefferson (PTB-RJ) e José Dirceu (PT-SP).

Depois da absolvição, festa para Luizinho. Amigos reúnem-se no apartamento do deputado Devanir Ribeiro (PT-SP). Estão lá o líder do PT na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), e os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Também participam da confraria o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o prefeito de Santo André (SP), João Avamileno (PT), e a assessora especial da presidência da República, Miriam Belchior. O evento é fechado à imprensa. Declaração de Luizinho:

– Não vou querer ficar fazendo festa com algo que não se pode festejar. Seria uma falta de sensibilidade.

O jornal Folha de S.Paulo publica o editorial “Livres para delinqüir”, em que comenta as absolvições de Brant e Luizinho:

“Ao liberar a delinqüência – caixa 2 é crime financiado por corrupção e outras fraudes –, os deputados expulsaram o que se entende por ética de seus domínios. Indecorosa é por definição a maioria de uma Casa que – ao abrigo do escrutínio público, escudada no anonimato do voto secreto – abona indecorosos.”

A Polícia Federal encaminha ao STF (Supremo Tribunal Federal) o inquérito que apurou o escândalo do mensalão. Traz 226 depoimentos em 4.500 páginas. Há 40 pessoas relacionadas para indiciamento, entre políticos, empresários, operadores do mercado financeiro, lobistas e servidores públicos. E cinco pessoas são efetivamente citadas: Duda Mendonça, Marcos Valério, José Genoino, Delúbio Soares e o ex-diretor do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato.

Depoimento à CPI dos Correios. Lúcio Funaro, apontado como antigo dono da corretora Garanhuns, afirma ter ouvido comentários no mercado financeiro, segundo os quais João Vaccari Neto, integrante da direção da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT), é o responsável por operações mantidas pelos fundos de pensão Petros (dos funcionários da Petrobrás), Previ (Banco do Brasil) e Funcef (Caixa Econômica Federal). Funaro é investigado por ter provocado prejuízos de R$ 100 milhões aos fundos de pensão. Diz ele:

– O que ouço no mercado é que o João Vaccari, que foi presidente do Sindicato dos Bancários e é ligado ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ao governo do PT, seria o responsável pela operação desses fundos. O Marcelo Sereno seria o responsável pela operação dos fundos menores.

Uma sindicância da Prefeitura de Itatiaiuçu (MG) descobre que a vereadora Veralucia da Silva (PT), cuja renda familiar é de R$ 2.300,00, recebe indevidamente dinheiro dos programas Bolsa-Família, Auxílio-Gás e Bolsa-Escola.

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