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Cronologia da Crise:

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10/04/2006

O advogado Rogério Buratti concede entrevistas aos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Reconhece que se reuniu “três vezes no máximo” com o ex-ministro Antonio Palocci (PT-SP) na “casa dos prazeres”. Buratti vinha negando isso. Agora, fala abertamente: a mansão do Lago Sul era um “ponto de apoio pessoal”, principalmente para empresários de Ribeirão Preto (SP) que estavam em Brasília. Dá como exemplo ele mesmo, que representava a Leão Leão, e nomeia Roberto Carkos Kurzweil, da Rek, Ruy Barquete, da Procomp, e José Roberto Colnaghi.

Para Buratti, a casa foi um erro. “O objetivo não foi atendido, só deu problema”. Ele fala ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha:

– As pessoas que freqüentavam a casa à noite, como amigos, levavam acompanhantes boa parte das vezes. Isso não significa que havia festas e que as festas tinham objetivos comerciais. Essa foi uma das grandes dificuldades para admitir a existência da casa. Acabou parecendo que era a casa dos prazeres. Cada pessoa que tem atividades em Brasília e quer receber uma acompanhante não precisa ter uma casa. Essa atividade que o Francenildo disse haver certamente deve ter havido. Duas, três ou quatro pessoas que levaram umas meninas para a casa... Atividades que não são comerciais, são particulares.

– Isso não tinha a ver com lobby? Quem pagava as garotas?

– Cada pessoa que freqüentava a casa e resolvia levar uma garota de programa ou não para dentro da casa se responsabilizava pelo pagamento da garota. Na verdade, está sendo revelada por meio da casa uma atividade cotidiana em Brasília. As meninas que freqüentavam aquela casa hoje continuam freqüentando outros lugares em Brasília e fazendo a mesma coisa.

Buratti diz acreditar que “as empresas” que usaram a casa “devem ter contribuído” com as despesas de manutenção do local. Cita a Rek, a Procomp e as empresas de Colnaghi.

– Por que o ministro não reconhece que freqüentou a casa?

– Porque a casa ganhou contornos morais. As negativas dele devem ter a ver com esse aspecto moral. Eu sempre neguei na CPI que tivesse visto o ministro na casa porque isso criou um constrangimento muito importante na minha vida. Até hoje as pessoas falam que minha atual namorada é uma menina que freqüentava a casa em Brasília, e não é verdade. Essa questão, como me incomoda muito até hoje, por invadir a privacidade, deve ter incomodado o ministro.

– Por que só agora o senhor decidiu revelar que viu Palocci na casa?

– O ex-ministro Palocci é uma pessoa por quem tenho profundo respeito. A questão fundamental: há ou não há ilicitude na casa? Se desde o começo a gente tivesse tratado isso com tranqüilidade... “Olha, eu freqüentei aquele imóvel, amigos meus de Ribeirão buscavam fazer negócios a partir dele, mas não há atividade ilícita que eu tenha feito ali...” Resolvi falar porque não vejo mais isso como um problema. Admitir isso deve tranqüilizar as pessoas. O que deve ser focado é se houve negócios ilícitos a partir da casa que devam ser investigados? Se as pessoas encontravam mulheres, é um problema particular delas, não um problema público.

Buratti conta ao repórter Ricardo Brandt, de O Estado, que conversou com Palocci dentro da “casa dos prazeres” sobre o caso do contrato entre a Caixa Econômica Federal e a multinacional Gtech. Fala de Barquete, outro importante auxiliar de Palocci em Ribeirão, levado no início do governo Lula para a Caixa Econômica Federal. Ele também cita Marcos Andrade, um ex-executivo da Gtech. O repórter indaga sobre um pedido de interferência no contrato. Buratti responde:

– Quem foi procurado pela Gtech foi o Ralf, dentro da Caixa. Até porque o Ralf já estava na casa. Ele tinha informações limitadas a respeito desse processo, pois ele estava lá havia um mês. Eles buscavam um contato com alguém vinculado ao Palocci, porque eles estavam buscando relações com o governo. E quando eles me procuraram em São Paulo, o Marcos Andrade simultaneamente, eles buscam um contato dentro da Caixa com alguém vinculado ao ministro Palocci. E aí são indicados a falar com o Ralf.

– Você estava atuando como lobista nisso, então?

– Eu atuava como executivo da Leão Leão...

– Mas eles não te procuram como executivo da Leão...

– O Marcos Andrade me procura como um eventual lobista para eles dentro da Caixa, em função da notícia de que eu teria relacionamentos. Essa notícia de que eu teria relacionamentos eles me informaram que tiveram em São Paulo. Na cidade de São Paulo, através de pessoas do PT. Tanto que o primeiro contato foi em São Paulo. Essa foi a primeira abordagem diferente que eu recebi. Eles também estabeleceram um segundo caminho através da própria Caixa, que o Ralf me relatou depois. Ele disse que o Jorge Mattoso, num jantar com ele no Blue Tree, disse que a Gtech havia procurado alguém vinculado ao ministro e ele teria dito que o Ralf era esse contato. O Mattoso havia comunicado a ele num jantar no Blue Tree, pois os dois moravam lá na época. O Ralf não quis fazer o contato e falou isso para o Palocci, porque ele estava entrando na Caixa com o objetivo de ser técnico, e não ser representante do Palocci, até porque ele queria outro cargo. Aí ele me pediu para eu ter a conversa com a Gtech. Que eu fosse o porta-voz do que a empresa queria.

– O que a empresa queria?

– A empresa relatou que eles mantinham contato, tinham dificuldade e queriam abrir as portas, pois queriam se relacionar diretamente com o governo e com o PT. E falavam inclusive que estavam sendo procurados por outros grupos do PT, mas que não eram grupos dominantes do ponto de vista do nível de governo.

– Falaram em quem? Em Waldomiro Diniz?

– Não, nunca. Nunca falaram de Waldomiro para mim. Mas falaram de outro grupo e que eles se sentiam incomodados e queriam saber qual era o canal e achavam que o Palocci naquele momento era uma pessoa que pudesse dar uma definição para eles.

– Qual era o acordo?

– A proposta é que fosse renovado o contrato, pois eles iam renovar, mas tinham problemas técnicos a resolver, principalmente vinculados a correspondentes bancários. Eles faziam propostas de que eles poderiam colaborar com o PT.

– Com quanto?

– Aí a proposta variava de fato de R$ 5 milhões a R$ 16 milhões. Não era mais nenhuma sondagem profissional. Eu ouvi essa conversa, relatei para o Ralf e levamos essa proposta. Eu participei dessa conversa. Eu e o Ralf fomos juntos conversar com o Palocci, na casa dele.

– Quando e onde?

– Na casa dele, no final de março, início de abril. Nessa época não existia a mansão, ainda. Era a casa dele. O Ralf freqüentava a casa dele. Fomos recebidos por ele e eu relatei a conversa.

Burattti garante que o “negócio” não prosperou.

O presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), e o relator da comissão, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), entregam o relatório final dos trabalhos de investigação ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Na última hora, foram incluídos os pedidos de indiciamento do banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity, e da ex-presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco. Ambos são acusados por crimes de sonegação fiscal, tráfico de influência e corrupção ativa.

De acordo com Serraglio, a Brasil Telecom, na época sob controle do Opportunity, injetou R$ 823 mil em empresas de Marcos Valério, para serviços de publicidade que não teriam sido prestados. Além disso, outros R$ 3 milhões teriam ingressado nas contas de Valério, quantia posteriormente remetida para empresas no exterior. Mas existe muito mais dinheiro na jogada: a Telemig Celular e a Amazônia Celular, pertencentes à holding da Brasil Telecom, repassaram R$ 158 milhões para as agências de Valério, em cinco anos, por supostos serviços de publicidade. Para o relator, o dinheiro alimentou o valerioduto e serviu para “aparar arestas” entre Daniel Dantas, o PT e o governo Lula.

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