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Cronologia da Crise:

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20/04/2006

A Polícia Federal quer ouvir todos os que souberam do esquema de repasse de dinheiro à base aliada do governo denunciado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Lula é um deles. Eis o trecho do depoimento de Jefferson à CPI dos Correios sobre o relato da conversa com o presidente, em janeiro de 2005, na presença do ministro Walfrido Mares Guia (PTB-MG), do Turismo:

– Aí o presidente bateu na minha perna e me disse: “Roberto, e o PTB?” Eu digo: “Não está bem, não, presidente. Infelizmente tudo que é tratado aqui não é cumprido. O Zé Dirceu não tem palavra, o que ele diz não cumpre, e eu tenho contra mim essa tentação do mensalão, que é um negócio que está enfraquecendo o senhor na Casa”. Ele falou: “Mas que é mensalão, Roberto?” Quando eu contei... Eu sou um homem vivido, tenho mais de 200 júris feitos na minha vida, tenho uma trajetória, tenho 23 anos de mandato... A reação do presidente foi de facada nas costas. “Que é isso?” Eu contei, as lágrimas desceram dos olhos dele. Ele levantou, me deu um abraço e me mandou embora.

Lula negou o choro.

Não foi a única vez que Jefferson abordou o assunto com o presidente. Dois meses depois, a conversa foi testemunhada, entre outros, pelos deputados José Múcio (PTB-PE) e Aldo Rebelo (PC do B-SP). Do depoimento de Múcio à CPI:

– Fui testemunha, em março, no segundo encontro, quando o presidente Roberto Jefferson disse ao presidente da República, em uma audiência que tivemos no início de março: “Presidente, o senhor precisa ver essa questão do mensalão, porque isso pode atrapalhar o seu governo”.

Durante sessão da CPI dos Correios, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) pergunta a Rebelo quando ele ouviu falar pela primeira vez do pagamento de dinheiro à base do governo. Diz Rebelo:

– A primeira vez, deputado Júlio Delgado, eu não ouvi. A primeira vez, eu li. Foi uma matéria publicada no Jornal do Brasil, se não me engano, no mês de setembro. E, em seguida, já no mês de março, ouvi, embora a reunião já estivesse no fim, já houvesse um clima de dispersão, o deputado Roberto Jefferson fazer referência a essa questão em uma reunião com o presidente Lula, já no mês de março.

Outro trecho do depoimento de Rebelo:

– Foi em uma reunião. Participaram eu, o líder Múcio, o ministro Mares Guia, o líder Chinaglia, Roberto Jefferson e o presidente Lula. No final da reunião, o deputado Roberto levantou a questão do hipotético pagamento a parlamentares. O presidente Lula ouviu e pediu a mim e ao líder Chinaglia que investigássemos a denúncia.

Desnecessário dizer que Rebelo e Arlindo Chinaglia (PT-SP) não encaminharam investigação séria sobre o assunto. Mas o depoimento de Rebelo deixa claro que Lula, nos dois meses que separaram as duas conversas com Jefferson, tampouco tomou qualquer providência para apurar a denúncia.

A Polícia Federal também atenta para a conversa entre Lula e o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Em maio de 2004, Perillo fez um relato importante ao presidente, durante uma visita a Goiás. Ambos estavam dentro de um carro, em Rio Verde (GO).

Em ofício encaminhado ao Conselho de Ética da Câmara, Perillo afirma ter dito “ao senhor presidente que ouvira rumores sobre a existência de mesada a parlamentares em conversas informais em Brasília, porém sem provas concretas. (...) O senhor presidente disse que não tinha conhecimento e que ia tomar as providências que o assunto requeria”.

Ora, Lula tinha conhecimento – ao menos de três episódios aqui relatados. E sobre as providências anteriormente prometidas, mais uma vez, nada. Lula sempre tratou de descaracterizar a existência do pagamento de mensalões a deputados da base aliada do seu governo.

O jornal O Globo noticia que Marcelo Sato Rosa, marido de Lurian Cordeiro Lula da Silva, filha do presidente Lula, trabalha como intermediário para liberar recursos federais a municípios de Santa Catarina. O prefeito de Orleans (SC), Valmir Bratti (PP), usou os serviços de Rosa em 2005, para enviar 26 projetos que dependiam de R$ 8 milhões de verbas federais.

Os pleitos encaminhados ao marido de Lurian foram levados à senadora Ideli Salvatti (PT-SC). Ela admite que o genro de Lula esteve em Brasília para tratar de investimentos. Um dos projetos do prefeito de Orleans, no valor de R$ 80 mil, virou uma emenda individual de Ideli.

Outro que admite o suposto tráfico de influência é Décio Lima (PT), ex-prefeito de Blumenau (SC). Informa que Rosa recebe os pedidos e encaminha-os à deputada Ana Paula Lima (PT-SC). O genro de Lula é chefe de gabinete da deputada. Ela é mulher do ex-prefeito Décio Lima. O casal é padrinho do segundo filho de Lurian e Rosa.

A CPI dos Bingos investiga se houve depósitos bancários de Paulo Okamotto para a filha e o genro do presidente. Rosa e a deputada Ana Paula contratam o advogado Ronei Danielli.

A Justiça Federal do Ceará bloqueia os bens do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do ex-presidente nacional do PT, José Genoino. Ele é investigado no caso em que seu assessor José Adalberto Vieira da Silva foi preso com US$ 100 mil na cueca e R$ 200 mil numa maleta, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

O inquérito quebrou os sigilos telefônicos de dois celulares de Guimarães e as informações bancárias de três empresas. O Ministério Público concluiu que houve favorecimento ao consórcio STN (Sistema de Transmissão do Nordeste), num empréstimo de R$ 300 milhões concedido pelo BNB (Banco do Nordeste do Brasil). Em troca de facilidades para a obtenção do crédito, o STN teria concordado em pagar propina. O dinheiro transportado pelo assessor de Guimarães seria parte do suborno.

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