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Cronologia da Crise:

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13/05/2006

A revista Veja publica reportagem com informações atribuídas a Daniel Dantas. O banqueiro teria em mãos uma relação de cardeais do PT com dinheiro escondido em paraísos fiscais. São os seguintes: Lula (com US$ 38,5 mil), José Dirceu (US$ 36,2 mil), Antonio Palocci (US$ 2,1 milhões) e Luiz Gushiken (E$ 902 mil). Também fazem parte da lista Márcio Thomaz Bastos (US$ 1,4 milhão), o diretor da Polícia Federal Paulo Lacerda (E$ 1,1 milhão), e o senador (PFL-SP) Romeu Tuma (E$ 1,1 milhão).

A reportagem de Marcio Aith afirma que a lista é resultado de um trabalho de investigação do norte-americano Frank Holder, ex-diretor da agência internacional de espionagem Kroll. De acordo com o repórter, “se pelo menos uma parte desse material for verdadeira, o governo Lula estará a caminho da desintegração”.

Veja relata que teve acesso à lista com as supostas contas em setembro de 2005, “com o conhecimento de Dantas”. Acrescenta que “a revista deu início a um exaustivo trabalho de apuração. A reportagem encontrou-se com Frank Holder uma vez em Zurique, na Suíça, e outras duas vezes em Buenos Aires”.

Segue a matéria: “Inicialmente, Holder explicou a Veja que a lista fora obtida pela Kroll no curso da investigação de outro escândalo: o da quebra, no Brasil e na Itália, da companhia de laticínios Parmalat. Segundo ele, foram recuperados, nessa investigação, documentos que comprovariam detalhes do pagamento de propina da Parmalat a autoridade dos dois países. Desdobrados, esses dados teriam, por tabela, batido na rede de corrupção pessoal do governo do PT. Em dois encontros com a reportagem de Veja, autoridades judiciais em Milão, encarregadas do caso Parmalat, afirmaram desconhecer essa conexão. Confrontado com a negativa italiana, Holder então mudou sua versão. Passou a dizer que as contas foram rastreadas por hackers pagos pelo ex-ministro argentino José Luis Manzano, símbolo da corrupção do governo Carlos Menem”.

Conforme a reportagem, “Manzano confirmou ter entregue ‘algumas contas de brasileiros’ a Holder, como um favor pessoal”. Veja salienta que “tentou confirmar a veracidade do material entregue por Manzano. Submetido a uma perícia contratada pela revista, o material apresentou inúmeras inconsistências, mas nenhuma suficientemente forte para eliminar completamente a possibilidade de os papéis conterem dados verídicos”.

Veja relata encontros de Dantas com o ex-presidente do Banco Popular, Ivan Guimarães, um petista que, segundo a revista, operou na clandestinidade, em 2003 e 2004, “achacando empresas e empresários”. A matéria:

“Dantas alega estar apenas defendendo-se de pressões e achaques dos petistas que queriam tirá-lo do comando da Brasil Telecom. Ainda que existam fortes evidências nesse sentido, o banqueiro não cabe na fantasia de vítima. Principalmente quando se sabe que usou dinheiro para acercar-se de pessoas próximas do presidente Lula e de José Dirceu. Dantas tentou seduzir Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, e seus sócios da Gamecorp. Antes de o grupo ser vendido à Telemar, o banqueiro pagava a Lulinha e sua trupe R$ 100 mil mensais, para que fornecessem conteúdo ao portal de internet da Brasil Telecom. Por último, ofereceu uma bolada para tornar-se sócio da Gemecorp. No fim, game over para Dantas: Lulinha preferiu os agrados da rival Telemar. Dantas deu também R$ 1 milhão ao advogado Roberto Teixeira, padrinho de um dos filhos de Lula. Até hoje, ninguém explicou o que o compadre fez pare merecer tanto dinheiro. Teixeira se limita a dizer que foi em troca de um serviço ‘sigiloso’. O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, também mereceu atenção especial. Amicíssimo do deputado cassado por corrupção José Dirceu, ele foi contratado por Dantas a peso de ouro. Levou R$ 8 milhões para ‘assessorar’ o banqueiro. Com isso, Dirceu, que foi ministro-chefe da Casa Civil de Lula, tornou-se mais sensível aos pleitos do Opportunity. Tem mais. Dantas deu a Marcos Valério as contas publicitárias da Telemig e da Amazônia Celular, num total de R$ 130 milhões. Além de fazer anúncios para Dantas, o carequinha levava ao banqueiro as propostas não republicanas de Delúbio Soares. Em 2004, o banqueiro colocou na sua folha de pagamentos a agência Matisse, de propriedade de Paulo de Tarso Santos, petista histórico e marqueteiro das campanhas de Lula em 1989 e 1994. A Matisse foi contratada para ‘reposicionar’ a marca da Brasil Telecom. Mas o que fez mesmo foi ajudar a ‘reposicionar’ Dantas frente ao governo petista.”

Veja também traz entrevista de Dantas concedida ao colunista Diogo Mainardi. O banqueiro afirma que o ex-tesoureiro Delúbio Soares pediu entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões para “resolver as dificuldades” do Opportunity com o governo do PT. Dantas informa que o “pedido” foi feito a seu ex-cunhado Carlos Rodenburg, diretor do Opportunity na época, em um encontro intermediado por Marcos Valério. Diz Dantas:

– O que houve foi uma sugestão de que, se déssemos uma quantia expressiva ao partido, eles poderiam nos ajudar a resolver as dificuldades que estávamos tendo com o governo. Dantas teria levado o pedido ao Citibank, o seu parceiro norte-americano naquele momento, com a opinião de que o repasse de uma quantia “muito grande” ao PT poderia estancar as dificuldades do grupo com o governo Lula. Mary Linn, diretora do Citibank, teria desaconselhado e o pagamento não teria ocorrido.

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro (PT-RS), anuncia que o governo brasileiro vai processar Daniel Dantas. Horas mais tarde, cauteloso, Genro prefere concentrar seu ataque na Veja:

– O presidente Lula informou que vai tomar todas as medidas legais e legítimas contra uma matéria que é caluniosa, difamatória e construída de forma arbitrária pela revista para atacar, sem nenhum fundamento, a honra do presidente da República.

Como se vê, Dantas foi poupado.

O senador Amir Lando (PMDB-RO), ex-ministro da Previdência, revela à revista Isto É que toda a negociação para abrir as portas do chamado crédito consignado ao BMG ocorreu dentro do Palácio do Planalto, e foi capitaneada pelo ex-ministro José Dirceu (PT-SP). As operações elevaram os lucros do BMG de R$ 90,2 milhões em 2003, para R$ 275,3 milhões em 2004. Envolveram Lula: o presidente assinou o decreto que permitiu a bancos privados oferecer os créditos consignados aos segurados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Abriu um filão de mais de 18 milhões de aposentados e pensionistas ao BMG.

Em entrevista aos repórteres Rudolfo Lago e Rodrigo Rangel, Lando afirma que “a coisa” não passava pela Previdência. “Era articulada na Casa Civil e operada diretamente no INSS”, cujo presidente na época era Carlos Bezerra. Ele confirma a Isto É:

– Tudo era acertado na Casa Civil.

Diz Lando:

– Numa reunião fechada da CPI do Mensalão, o próprio Valério disse que o BMG era um banco ligado ao PT.

De acordo com o senador, o BMG tinha experiências anteriores com crédito consignado em prefeituras do PT e associações sindicais.

Durante a entrevista, o ex-ministro da Previdência afirma que contou ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, ter ouvido mais de uma vez rumores de que existiam “cobranças de vantagens” para permitir a habilitação dos bancos.

Isto É também trata de inquérito aberto no Ministério Público para investigar um contrato de aluguel de computadores para o INSS, no valor de R$ 260 milhões. A suspeita é decorrente de decisão posterior do próprio INSS. O órgão comprou computadores para equipar suas agências por R$ 30 milhões.

Além de responsabilizar Bezerra pelo ato supostamente lesivo aos cofres públicos, a ação do Ministério Público aponta o envolvimento do ex-presidente da Dataprev, José Jairo Ferreira Cabral. Tido como amigo do presidente Lula e indicado para o cargo pelo PT, Cabral foi casado com Sandra Cabral, uma das principais assessoras de Dirceu naquele período.

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